DIÁRIO DE BORDO

Especialistas promovem debate e refletem sobre educação indígena

Os projetos Caravana do Esporte e Caravana das Artes promoveram, na última quarta-feira, um debate com o tema “A Infância Indígena e a Melhoria dos Indicadores Sociais na Região do Médio Purus”. O objetivo era pensar novas maneiras de educação no contexto indígena. À frente das discussões, estavam lideranças locais, especialistas e parceiros.

 

O Brasil é um país multifacetado em diversos aspectos, dentre os quais se destaca a pluralidade cultural. Em um território de enormes proporções, fica difícil estabelecer uma unidade, porém há lugares em que as diversidades se encontram em um único município. É o caso de Lábrea, no sul do Amazonas.

 

São mais de dez povos indígenas diferentes e cerca de 70 aldeias. O cenário provoca reflexões. As diferenças culturais são tamanhas que não se pode pensar em educação de maneira generalizada, é preciso estabelecer políticas públicas mais específicas, de modo a respeitar a tradição de cada povo.

Adaptar a educação à cultura indígena foi um dos centros do debate (Foto: Celia Santos)

Adaptar a educação à cultura indígena foi um dos centros do debate (Foto: Celia Santos)

 

“Sabemos que os mais vulneráveis são os indígenas e que a educação para esses povos devem ser diferenciada, pois o modelo convencional não faz parte do modo de vida deles. Precisamos achar uma saída para melhorar nosso financiamento com programas de educação. Lábrea tem a necessidade do modelo de escola floresta, escola rio, essa é a nossa realidade. O modelo escola do campo, não funciona”, explicou Vidinei Vital, secretário de educação de Lábrea.

 

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“A valorização do professor é fundamental nesse processo”, destacou Vital. Lábrea tem apenas 32 professores capacitados para o atendimento de todas as aldeias. A maioria está concentrada na cidade, o que ainda agrava mais a situação de algumas comunidades distantes.

 

“É preciso mudar os paradigmas da política, com formatos dentro do conhecimento e tempo indígenas. O conhecimento indígena está fora das nossas caixinhas, a arquitetura, a ciência, a educação, o convívio”, completa Linete Ferreira Ruiz, representante da Funai na coordenação da região do Médio Purus.

População de Lábrea compareceu em massa ao debate e ficou atenta as novas possibilidades de se promover educação (Foto: Celia Santos)

População de Lábrea compareceu em massa ao debate e ficou atenta as novas possibilidades de se promover educação (Foto: Celia Santos)

 

A reprodução do modelo de escola tradicional do Brasil em comunidades indígenas nem sempre representa uma solução. A maneira diferente de se viver nas aldeias também exige novas metodologias de ensino, que respeitem o espaço onde o indígena está inserido e também seus valores culturais. “É comum chegar às comunidades indígenas e as escolas estarem vazias. O modelo da escola ócio não funciona nem na cidade, muito menos em uma aldeia”, justificou Ruiz.

 

Além dos indígenas viverem outra realidade, distante do modo de vida urbano, a questão da educação com padrões generalizados é uma ameaça às tradições e cultura indígena. “Dependendo da forma com que o Estado chega, a intervenção pode causar prejuízos para o povo. A língua está dentro do processo de formação do povo”, explicou a especialista da FUNAI. A extinção das línguas indígenas em virtude do contato exacerbado com o português é preocupante.

 

“Atualmente a escola está baseada em paradigmas desconhecidos para a comunidade indígena. Com agenda e calendário completamente diferentes, além da língua distinta daquela que eles crescendo ouvindo seus pais falarem. Isso traz muitos problemas”, ressaltou o professor do Instituto Esporte Educação, Alexandre Arena, que conheceu essa realidade de perto com a visita a algumas aldeias de Lábrea.

 

Para o professor João Batista Freire, do Instituto Esporte Educação, uma das saídas está em potencializar a educação dentro das próprias comunidades. “O protagonismo da educação tem que ser o conhecimento da vida. Se não temos verba para fazer uma educação melhor nas comunidades distantes a vinte quilômetros pelo rio, vamos ter que desenvolver o potencial de lá, esse é o caminho para a auto sustentabilidade”.

Unai Sacona, representante do Unicef, quer que a iniciativa da Caravana continue rendendo resultados futuros (Foto: Celia Santos)

Unai Sacona, representante do Unicef, quer que a iniciativa da Caravana continue rendendo resultados futuros (Foto: Celia Santos)

 

Coordenador da Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus (Focimp), Zé Bajaga lembrou que nem sempre os indicadores sociais estão de acordo com a realidade, justamente pelos órgãos que elaboram tais dados usarem padrões nacionais, quando o ideal seria um olhar regionalizado, que levasse em conta a diferente realidade indígena. “Devemos nos unir com os professores para fazer a diferença, além de haver uma articulação maior dos órgãos de governo com as aldeias”, observou.

 

A Caravana do Esporte e a Caravana das Artes estão em Lábrea para desenvolver mais uma etapa do projeto, no entanto, a ideia é de que não seja uma ação passageira. Os aprendizados e experiências devem servir de base para que o trabalho direcionado à educação continue.

 

“O Unicef quer entender os avanços do município de Lábrea, o nosso desejo é que a Caravana não seja um evento apenas para a cidade, mas que ela seja percebida como uma ferramenta de transformação e que seja capaz de perceber as mudanças que a educação necessita”, afirmou Unai Sacona, coordenador do Unicef para a Amazônia Legal.

ESPN

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