DIÁRIO DE BORDO

Mariene de Castro conhece as crianças da etnia Guarani-kaiowá

IMG_9114celia santos NETSA Caravana da Música viajou até o município de Amambai, no Mato Grosso do Sul, acompanhada pela cantora Mariene de Castro. A visita aconteceu em agosto de 2014 e ficou carinhosamente registrada na memória da baiana, pela primeira vez em uma tribo indígena. A região tem a segunda maior população de índios do Brasil e possui forte ligação com a cultura.

 

Mariene visitou a Aldeia Amambaí, que abriga índios das etnias Guarani-kaiowá. Os representantes da etnia ficaram mais conhecidos do restante do país em 2012, quando a notícia de uma possível expulsão de terras ganhou espaço nas redes sociais. A mobilização dos internautas em torno do problema ampliou a discussão sobre o direito às terras. No entanto, foram poucos que tiveram a oportunidade de descobrir de perto mais sobre os índios dessa região, como a compositora.

 

A cantora conheceu os projetos realizados pela Caravana da Música em Amambai e trocou muitas experiências com as crianças, que vivem a oportunidade de aprender por meio das artes. A educação traz valores e engrandece a formação dos moradores sem deixar de lado as tradições indígenas.

 

Leia a entrevista de Mariene de Castro para o programa Caravana do Esporte:

 

Como foi estar na Aldeia Amambai?

 

Eu achei uma experiência linda, sempre quis estar nesses lugares. Tenho uma proximidade muito grande com os negros e com a história dos negros, mas com os índios, assim tão de perto, foi a primeira vez. Estar no habitat deles, no lugar deles foi muito forte pra mim. Conversei, conheci as casas, busquei, com o pequeno espaço de tempo que estive lá, fazer e tentar me conectar mesmo com essa essência que está em mim, e que eu falo tanto, que eu canto tanto, que eu busco tanto sinto na minha alma, mas ter o contato, olhar nos olhos, sentir um abraço e receber uma bênção, isso foi muito especial.

 

Uma professora na aldeia nos disse o seguinte: – Está no horário da merenda e as crianças não estão pedindo o lanche hoje. Você acha que a arte alimenta?

 

Com certeza a arte alimenta. A arte cura, a arte nos enobrece, a arte é o nosso pão de cada dia, é o meu pão de cada dia desde quando eu me predispus a começar a trabalhar para ajudar a minha família, para ajudar a minha mãe. A arte alimenta a minha casa, alimenta hoje os meus filhos, é o meu alimento e o alimento da minha alma.

 

Durante sua passagem na Caravana, a cantora conheceu a segunda maior tribo indígena do país a Aldeia Amambaí

Durante sua passagem na Caravana, a cantora conheceu a segunda maior tribo indígena do país, a Aldeia Amambai

 

O que você achou da Caravana da Música?

 

Achei o projeto grandioso,  o comprometimento das pessoas envolvidas, a entrega e o amor são verdadeiros. É claro que ele é liderado por mulheres, é nítido, porque ele tem ventre, ele é visceral, ele toca na alma, tem o lado da proteção dos homens, mas é nítido que a mulher vai à frente. O arquétipo da guerreira é muito claro na Caravana, fico mais uma vez feliz e orgulhosa de participar e vivenciar tudo isso. É um exemplo lindo de humanismo, de gostar de gente, de cuidar de gente que a gente não conhece como cuidamos dos nossos filhos. E assim, eu senti o abraço de cada criança, abracei cada um deles como se fossem meus filhos, e gostaria de ser mil pra poder cuidar individualmente de cada um, entender a dor de cada um e saber a dificuldade de cada um.

 

O que mais te preocupa quando se fala de infância no Brasil?

 

A falta de oportunidade é o grande risco, é o que coloca todo mundo à margem e as crianças são as primeiras a sofrerem. Elas estão dando os primeiros passos, elas estão chegando, elas têm a pureza, elas têm a inocência, elas não têm ainda as ferramentas. Muitos já nascem guerreiros porque tem que nascer guerreiros num País como o nosso.

A mãe tem que ser o pai e a mãe. Às vezes a mãe também abandona, o Estado não acolhe, a família muitas vezes deixa a também à deriva. Então essa é a minha preocupação com as crianças, quando eu vejo que falta a base da família pra muitas delas.

Penso que a grande preocupação é a referência que essas crianças têm. O que falta no ser humano é o exemplo. Eu me preocupo muito com os meus filhos em relação a isso, como é que eles vão me enxergar e o que é que eu vou deixar pra eles, qual exemplo que eles vão ter de mim, porque é esse exemplo que vai ser maior do que qualquer escola, do que qualquer faculdade, do que qualquer emprego que eles serão bem remunerados ou bem sucedidos na vida, mas eles têm que ter esse exemplo, esse exemplo que forma.

 

O ensino da música dentro do currículo escolar é obrigatório, porém há falta de profissionais para atenderem essa demanda. Por que a arte é importante para a formação do indivíduo?

 

 

Porque a arte puxa aquilo que vem de dentro pra fora, ela traz a essência, a autoestima, a coragem, a consciência, o foco. Ela traz a disciplina. A arte vem com todos esses aparatos. Eu fui uma criança que cresci aprendendo balé clássico, então uma menina que faz balé clássico ela aprende a ser disciplinada,  a ser organizada,  a ter foco, a ter direcionamento, enfim, isso vem pra vida. A arte traz o que tem que ser, o que vem de dentro pra fora…

É importante porque ela cura, porque ela socializa, ela permite.

 

+Veja a galeria de fotos da participação da cantora na Caravana em Amambai – MS

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